sexta-feira, agosto 20, 2010

Presente

Foi em um de seus aniversários. Veio em uma caixa cheia de furos com um grande laço azul em cima.
Abriu com pressa, mas também muito cuidado. Dentro, dois olhos de cores diferentes brilhavam. A cabeça parecia ser maior que todo o resto do corpo peludo.
Fez-lhe uma cama, apesar de toda noite acabar cedendo um pedaço do seu colchão.
Não queria mais os brinquedos. Sua diversão era criar coisas para brincar com o animalzinho. Ela adorava seu gato, seu único objeto de afeição.
Mas o tempo não é brisa suave. O tempo carrega tudo com ele, a infância e os olhos brilhantes.
Ela percebera há muito não dava devida atenção ao felino que ficava sempre mais velho e doente. O veterinário já recomendara o sacrifício.
Cada dia que passava era mais insuportável pensar no seu sofrimento. Não podia mais conviver com aquilo que lhe causava tal horror. Precisava fazer algo. Algo que ninguém mais podia fazer, algo que ninguém mais tinha o direito de fazer se não ela.
Tomada a decisão, dirigiu-se a cozinha e pegou a faca mais afiada. O gato consentiu com a quietude da alma. Deu-lhe três golpes, o primeiro atingiu suas necessidades básicas, o segundo a razão e o terceiro golpe acertou-o na raiz de todo o sentimento.
O sangue começou escorrer por todo o quarto e parecia nunca acabar. Começou a subir por suas pernas. Logo, de seus braços, pescoço e cabelos escorria o liquido púrpura. O sangue do gato havia se misturado ao seu próprio. Quem sangrava era ela. A morte dele era a sua morte. O que ela tentou matar a matou, por dentro, com a mesma faca afiada, com a mesma frieza e covardia do seu ato. Embrulhado para presente, com uma fita azul em cima, sem pressa e sem cuidado algum.

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