Factu est..
quinta-feira, julho 29, 2010
sexta-feira, julho 23, 2010
O esmagamento das gotas
Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
Julio Cortázar
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quarta-feira, julho 21, 2010
"Guardemo-nos de definir a higiene mental como prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos inimigos, mas nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida que porfiam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vitimas de doença mental realmente perdidas encontram-se entre aqueles que parecem mais normais.
Muitos daqueles que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de existência, porque suas vozes humanas foram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem lutam, ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico.(...)"
Eric Fromm
Muitos daqueles que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de existência, porque suas vozes humanas foram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem lutam, ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico.(...)"
Eric Fromm
Azáfama
Saio de casa.Vento me leva! Não quero destino. Quero o acaso. Dia nublado. Nuvem cinzenta. Me chama, eu vou. Pedalo sem pressa. O vento contra só me faz enfrentá-lo cada vez mais. Me tateia. Me envolve em suas linhas. Me amarra. Me segura. Mas eu não sinto. Hoje não é dia de sentir. Dores no corpo. Dores na alma. Falta de ar. Coração pulsando. Nada. Eu não sinto. Só me sinto viva. Só me sinto livre. Mais rápido. Mais rápido. Lá na frente. Espera aí. Eu conheço. Não precisamos parar. Grito! Aceno! Beijo! Guardo no bolso vermelho e retribuo da mesma forma. Entre os carros desaparece a linha dourada. Continuo. Fugindo do monstro vermelho. Já estou longe. Lista de chavões. Organizados. Desorganizados. O relógio grita por mim. Hora de voltar. Garota apressada entre os carros. Retrovisores reclamam silenciosamente. Peço desculpas. Não. Não peço. Verifico se tudo ainda está em meu bolso(grito, aceno, beijo). Tudo no lugar. Já posso ir. Pobres motoristas com pressa. Não saem do lugar. Só eu me movo pelo corredores estreitos. Chega de confusão. Tranquilidade. Rua só minha. Egoísmo. Felicidade. Mas a bicicleta, já parte de mim, reclama. Perto de casa. Jardim Botânico! Mas a luz vermelha nos segura. Admiro a vista verde. Espero. Viro a cabeça. Carros vindo. Os observo parar. Duas bicicletas na contra mão!!! Tudo bem. Eu sorrio e continuo...
De coragem em um dia, já me basta um beijo jogado no ar.
De coragem em um dia, já me basta um beijo jogado no ar.
segunda-feira, julho 19, 2010
sábado, julho 17, 2010
Chegou a Coruja
Vai passarinho! Corre! Voa!
Entenda que a coruja chegou e quer seu reino novamente. Ela não gosta do seu sentimentalismo.
Passarinho, você está doente, precisa se recuperar. Tenha fé! A asa quebrada vai melhorar.
Mas fique atento! Cuidado com Thanatos, que te persegue porque Eros anda esquecendo de cuidar de você.
Não vá para um lugar escuro, um passarinho precisa de sol, de um lugar bonito.
Não desperdice seu canto a noite, ninguém vai te ouvir. Se encontrar uma margarida solitária de alma verde, não a escute falar, ela te iludirá e lhe dará esperanças fazendo você voltar antes do tempo.
Só volte quando se recuperar totalmente.
Durante nossa despedida, chega um pequeno guaxinim e pergunta:
- Você vai embora passarinho?
- Sim. - Afirmou o pássaro tristonho.
- Por que? Você não gosta deste lugar? Você não gosta de mim?
- Não é por isso querido amigo. Acontece que, a coruja voltou e reclama seu reino, ela não quer dividi-lo. Não por enquanto. Sem falar que estou fraco e preciso melhorar.
Parou um pouco, refletiu e continuou:
- Vê minhas asas? Elas não são as mesmas a algum tempo. Como posso cuidar de um reino inteiro, se nem posso olhá-lo de cima? Vê minhas penas? Minhas penas sempre foram tão coloridas, e agora até o céu em dia de chuva possui mais cores que eu. Como posso alegrá-los com minhas penas se elas não possuem mais cor? Minhas palavras ninguém ouve mais. Não tenho mais força para pegar os pequenos isentos que devoram nossas plantas e nos atormentam durante a noite. Preciso ir para continuar vivo!
O guaxinim com grande aperto o coração ainda pergunta, com medo do que vai ouvir:
- Mas você volta?
- Se a coruja permitir e, se eu conseguir me recuperar.
- Isso vai demorar?
- Não sei!
Sem hesitar, o animalzinho colocou sua mão o peito e dali tirou algo, que ofereceu ao amigo voador:
- Então leve consigo meu coração. Eu crescerei, ficarei forte e sábio, aprenderei tudo com a coruja. Mas eu só voltarei a sentir algo quando você me devolvê-lo. Dessa forma não sentirei saudade, nem tristeza por estar longe da sua amizade. Assim eu também me protejo.
O passarinho pegou o pequeno objeto e guardou entre as penas, perto do próprio coração.
Sem despedir-se pegou carona com a primeira nuvem apressada que viu, e foi na direção do pôr-do-sol para um lugar muito longe, onde quase é possível tocar a lua, ao abrigo de um carvalho protegido pelas lembranças.
Entenda que a coruja chegou e quer seu reino novamente. Ela não gosta do seu sentimentalismo.
Passarinho, você está doente, precisa se recuperar. Tenha fé! A asa quebrada vai melhorar.
Mas fique atento! Cuidado com Thanatos, que te persegue porque Eros anda esquecendo de cuidar de você.
Não vá para um lugar escuro, um passarinho precisa de sol, de um lugar bonito.
Não desperdice seu canto a noite, ninguém vai te ouvir. Se encontrar uma margarida solitária de alma verde, não a escute falar, ela te iludirá e lhe dará esperanças fazendo você voltar antes do tempo.
Só volte quando se recuperar totalmente.
Durante nossa despedida, chega um pequeno guaxinim e pergunta:
- Você vai embora passarinho?
- Sim. - Afirmou o pássaro tristonho.
- Por que? Você não gosta deste lugar? Você não gosta de mim?
- Não é por isso querido amigo. Acontece que, a coruja voltou e reclama seu reino, ela não quer dividi-lo. Não por enquanto. Sem falar que estou fraco e preciso melhorar.
Parou um pouco, refletiu e continuou:
- Vê minhas asas? Elas não são as mesmas a algum tempo. Como posso cuidar de um reino inteiro, se nem posso olhá-lo de cima? Vê minhas penas? Minhas penas sempre foram tão coloridas, e agora até o céu em dia de chuva possui mais cores que eu. Como posso alegrá-los com minhas penas se elas não possuem mais cor? Minhas palavras ninguém ouve mais. Não tenho mais força para pegar os pequenos isentos que devoram nossas plantas e nos atormentam durante a noite. Preciso ir para continuar vivo!
O guaxinim com grande aperto o coração ainda pergunta, com medo do que vai ouvir:
- Mas você volta?
- Se a coruja permitir e, se eu conseguir me recuperar.
- Isso vai demorar?
- Não sei!
Sem hesitar, o animalzinho colocou sua mão o peito e dali tirou algo, que ofereceu ao amigo voador:
- Então leve consigo meu coração. Eu crescerei, ficarei forte e sábio, aprenderei tudo com a coruja. Mas eu só voltarei a sentir algo quando você me devolvê-lo. Dessa forma não sentirei saudade, nem tristeza por estar longe da sua amizade. Assim eu também me protejo.
O passarinho pegou o pequeno objeto e guardou entre as penas, perto do próprio coração.
Sem despedir-se pegou carona com a primeira nuvem apressada que viu, e foi na direção do pôr-do-sol para um lugar muito longe, onde quase é possível tocar a lua, ao abrigo de um carvalho protegido pelas lembranças.
quinta-feira, julho 15, 2010
Sua menininha morreu.
Morreu a muito tempo com todas aquelas brigas, com toda aquela idiotice.
Ela morreu aos poucos. Quando o cabo da feiticeira quase acertou sua cabeça. Quando sua tia a colocou em baixo do braço e saiu correndo para não escutar a briga. Quando a cinta apertou o pescoço dele. Quando ele roubou sua arma para tentar matar a namorada. Quando via aquela sombra chegar aos berros em casa.
E ela morreu - principalmente - quando ouviu os gritos da avó e viu a mãe chorando no chão.
Sua meninice foi embora naquele dia junto com o sangue que escorreu do seu nariz.
Ela nunca mais tomou banhos de chuva como antes. Ela nunca mais subiu em árvores como antes. Ela nunca mais rolou na grama como antes.
Enfim..
Ela morreu junto com o sangue que saiu do seu nariz.
Ela morreu afogada em remédios, álcool e chocolate, dentro de uma caixa fedendo naftalina.
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