Vai passarinho! Corre! Voa!
Entenda que a coruja chegou e quer seu reino novamente. Ela não gosta do seu sentimentalismo.
Passarinho, você está doente, precisa se recuperar. Tenha fé! A asa quebrada vai melhorar.
Mas fique atento! Cuidado com Thanatos, que te persegue porque Eros anda esquecendo de cuidar de você.
Não vá para um lugar escuro, um passarinho precisa de sol, de um lugar bonito.
Não desperdice seu canto a noite, ninguém vai te ouvir. Se encontrar uma margarida solitária de alma verde, não a escute falar, ela te iludirá e lhe dará esperanças fazendo você voltar antes do tempo.
Só volte quando se recuperar totalmente.
Durante nossa despedida, chega um pequeno guaxinim e pergunta:
- Você vai embora passarinho?
- Sim. - Afirmou o pássaro tristonho.
- Por que? Você não gosta deste lugar? Você não gosta de mim?
- Não é por isso querido amigo. Acontece que, a coruja voltou e reclama seu reino, ela não quer dividi-lo. Não por enquanto. Sem falar que estou fraco e preciso melhorar.
Parou um pouco, refletiu e continuou:
- Vê minhas asas? Elas não são as mesmas a algum tempo. Como posso cuidar de um reino inteiro, se nem posso olhá-lo de cima? Vê minhas penas? Minhas penas sempre foram tão coloridas, e agora até o céu em dia de chuva possui mais cores que eu. Como posso alegrá-los com minhas penas se elas não possuem mais cor? Minhas palavras ninguém ouve mais. Não tenho mais força para pegar os pequenos isentos que devoram nossas plantas e nos atormentam durante a noite. Preciso ir para continuar vivo!
O guaxinim com grande aperto o coração ainda pergunta, com medo do que vai ouvir:
- Mas você volta?
- Se a coruja permitir e, se eu conseguir me recuperar.
- Isso vai demorar?
- Não sei!
Sem hesitar, o animalzinho colocou sua mão o peito e dali tirou algo, que ofereceu ao amigo voador:
- Então leve consigo meu coração. Eu crescerei, ficarei forte e sábio, aprenderei tudo com a coruja. Mas eu só voltarei a sentir algo quando você me devolvê-lo. Dessa forma não sentirei saudade, nem tristeza por estar longe da sua amizade. Assim eu também me protejo.
O passarinho pegou o pequeno objeto e guardou entre as penas, perto do próprio coração.
Sem despedir-se pegou carona com a primeira nuvem apressada que viu, e foi na direção do pôr-do-sol para um lugar muito longe, onde quase é possível tocar a lua, ao abrigo de um carvalho protegido pelas lembranças.